Cientistas da Universidade de Oxford estão trabalhando em ritmo acelerado para desenvolver uma vacina contra a espécie Bundibugyo do vírus Ebola — a cepa responsável pelo surto atual, centrado na República Democrática do Congo (RDC), que já registrou 750 casos suspeitos e 177 mortes.
A previsão é de que a vacina esteja pronta para ensaios clínicos em dois a três meses, embora os pesquisadores ressaltem que ainda há muitas incertezas e que testes em animais e em humanos serão necessários para confirmar sua eficácia.
Uma tecnologia já conhecida
A vacina utiliza a plataforma ChAdOx1, a mesma desenvolvida pela equipe de Oxford durante a pandemia de Covid-19. Trata-se de uma tecnologia altamente adaptável, baseada em um vírus do resfriado comum que normalmente infecta chimpanzés e foi geneticamente modificado para ser seguro em humanos. Esse vírus modificado serve como veículo para transportar material genético do Ebola Bundibugyo até as células do organismo, treinando o sistema imunológico a reconhecer e combater a doença — sem causar infecção ou sintomas.
Desta vez, a plataforma foi carregada com o código genético específico da espécie Bundibugyo, adaptação que, segundo os cientistas, pode ser feita de forma relativamente rápida.
Contexto do surto
A OMS elevou o nível de risco do surto de "alto" para "muito alto" na RDC e declarou emergência de saúde pública de preocupação internacional, embora tenha reforçado que o evento não configura uma pandemia. Na região ao redor do país, o risco também é considerado alto, mas permanece baixo em nível global.
O Ebola Bundibugyo é uma cepa rara — responsável por apenas dois surtos anteriores, em Uganda em 2007 e na RDC em 2012 — e mata cerca de um terço dos infectados. Ao contrário da espécie Zaire, a mais comum, não existe vacina comprovada contra ela.
Outra vacina experimental para o Bundibugyo também está sendo desenvolvida por outro grupo, mas as estimativas indicam que levará de seis a nove meses para que qualquer dose esteja disponível para testes.
Produção em escala
O Instituto Serum da Índia já está alinhado para produzir a vacina em larga escala assim que Oxford fornecer o material de grau médico necessário. O professor Lambe, chefe de imunologia do Oxford Vaccine Group, explicou à BBC: "Uma vez que começarmos a fornecer o material para eles, eles podem agir rápido e em grande volume."
Lambe destacou a urgência do momento: "As pessoas estão preocupadas com esse surto. Normalmente, você se prepara para o pior cenário — espero que o rastreamento de contatos e a quarentena sejam suficientes, mas não podemos desacelerar."
A OMS, no entanto, sinalizou que ainda não há dados em animais que comprovem a eficácia desta vacina em particular, e que sua classificação como candidata promissora depende dos resultados desses testes — que, segundo a BBC, já estão em andamento em Oxford.
Como a vacinação funcionaria
Diferentemente das campanhas em massa realizadas durante a Covid-19, as vacinas contra o Ebola são aplicadas por meio de uma estratégia chamada vacinação em anel. Nesse modelo, apenas as pessoas com maior risco de infecção são imunizadas: contatos próximos de casos confirmados e profissionais de saúde que atendem pacientes infectados.