Por muito tempo, o debate sobre o Brexit esteve profundamente ligado à imigração. Durante a campanha do referendo de 2016, uma das principais promessas políticas era a recuperação do controle das fronteiras britânicas e a consequente redução da imigração. No entanto, quase uma década depois da decisão histórica de deixar a União Europeia, os dados mais recentes revelam uma realidade muito mais complexa.
O Brexit, de fato, transformou o sistema migratório do Reino Unido. Contudo, ao contrário do que muitos imaginavam, ele não resultou em uma redução significativa do número total de trabalhadores estrangeiros no país. O que realmente mudou foi a origem dessas pessoas.
Uma análise recente conduzida por economistas que estudam o impacto da saída do Reino Unido da União Europeia indica que o número de trabalhadores estrangeiros aumentou ligeiramente após o Brexit. Em 2024, havia aproximadamente 207 mil trabalhadores estrangeiros a mais no mercado de trabalho britânico, o que corresponde a cerca de 0,6% da força de trabalho total do país.
À primeira vista, esse número pode parecer contraditório com a narrativa política que marcou o processo do Brexit. Entretanto, a explicação está na profunda mudança na composição da imigração.
O fim da livre circulação
Antes do Brexit, cidadãos da União Europeia tinham o direito de viver e trabalhar no Reino Unido sem a necessidade de visto. Esse regime de livre circulação foi um dos pilares da integração europeia e contribuiu significativamente para a mobilidade laboral dentro do continente.
Com a saída da União Europeia, esse sistema foi encerrado. Em janeiro de 2021, o governo britânico introduziu um novo modelo migratório baseado em pontos, no qual trabalhadores estrangeiros precisam cumprir requisitos específicos relacionados a qualificação profissional, nível salarial e domínio da língua inglesa.
Esse sistema passou a tratar cidadãos europeus e não europeus sob critérios semelhantes. Na prática, isso reduziu drasticamente a facilidade com que trabalhadores da União Europeia podiam se estabelecer no Reino Unido.
Os efeitos dessa mudança são claros nos dados do mercado de trabalho. Estima-se que o número de trabalhadores provenientes da União Europeia tenha diminuído em cerca de 785 mil pessoas até 2024, representando uma queda significativa dentro da força laboral britânica.
A ascensão da imigração de fora da Europa
Se por um lado houve uma redução da presença de trabalhadores europeus, por outro lado o Reino Unido passou a receber um número muito maior de trabalhadores vindos de países fora da União Europeia.
Nesse grupo, o aumento foi ainda mais expressivo. As estimativas apontam para cerca de 992 mil trabalhadores adicionais provenientes de países não europeus, número suficiente para compensar a queda na imigração europeia e gerar um pequeno crescimento no total de trabalhadores estrangeiros no país.
Essa mudança reflete diretamente a lógica do novo sistema migratório britânico. Ao priorizar critérios como qualificação profissional e demanda do mercado de trabalho, o Reino Unido passou a atrair talentos de diferentes regiões do mundo, incluindo países da Ásia, África e América Latina.
Um cenário influenciado por múltiplos fatores
É importante destacar que o impacto do Brexit na imigração não ocorreu de forma isolada. Outros eventos globais também influenciaram os fluxos migratórios para o Reino Unido nos últimos anos.
Entre esses fatores estão a pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia e programas especiais de visto destinados a determinadas comunidades, como o esquema migratório oferecido a residentes de Hong Kong.
Todos esses acontecimentos contribuíram para alterar o padrão migratório e tornam difícil atribuir todas as mudanças exclusivamente ao Brexit.
O dilema europeu da imigração
Mesmo com a recuperação da autonomia sobre sua política migratória, o Reino Unido continua enfrentando um dilema comum a muitas economias europeias: como equilibrar a necessidade econômica de trabalhadores estrangeiros com as pressões políticas para reduzir a imigração.
A população britânica está envelhecendo, e diversos setores da economia enfrentam escassez de mão de obra qualificada. Nesse contexto, a imigração continua desempenhando um papel fundamental para sustentar o crescimento econômico e o funcionamento de setores essenciais, como saúde, tecnologia e serviços.
Por outro lado, a imigração permanece um tema politicamente sensível. Nos últimos anos, o governo britânico adotou medidas mais restritivas no sistema de vistos, o que já resultou em uma redução significativa na concessão de autorizações de trabalho.
O que podemos aprender com esse cenário?
Do ponto de vista jurídico e político, o Brexit demonstrou que alterar regras migratórias não significa necessariamente reduzir a presença de estrangeiros na economia. Em vez disso, o que ocorre muitas vezes é uma reorganização dos fluxos migratórios.
Para a comunidade lusófona que vive no Reino Unido — incluindo brasileiros, portugueses e cidadãos de países africanos de língua portuguesa — esse novo contexto pode representar tanto desafios quanto oportunidades.
O sistema migratório atual é mais técnico, baseado em critérios objetivos e na demanda do mercado de trabalho. Isso significa que compreender as regras legais e os requisitos migratórios tornou-se ainda mais importante para quem deseja viver, trabalhar ou investir no país.
Em um cenário global cada vez mais dinâmico, o direito migratório britânico continuará evoluindo. Para imigrantes e profissionais que acompanham essas mudanças, manter-se informado é fundamental para navegar com segurança pelas novas regras que moldam o futuro do Reino Unido.