“Eu era prisioneira dentro da minha própria casa”: polícia alerta para aumento de casos

de invasão criminosa de residências no Reino Unido

Por Sima Kotecha, Jade Thompson e Katie Inman
452 5 Min

“Eu era prisioneira dentro da minha própria casa”: polícia alerta para aumento de casos
BBC

Centenas — e possivelmente milhares — de residências estariam sendo tomadas por criminosos todas as semanas no Reino Unido para armazenar, distribuir e vender drogas, segundo alertam autoridades policiais.

A prática, conhecida como cuckooing (ou "cucagem", em tradução livre), ocorre quando criminosos se aproveitam de pessoas vulneráveis, como idosos, dependentes químicos, pessoas com deficiência ou indivíduos socialmente isolados, para ocupar suas casas e utilizá-las para atividades ilegais.

Embora ainda não seja uma infração penal específica, o fenômeno tem preocupado cada vez mais as autoridades devido ao aumento dos casos e à gravidade dos abusos relatados pelas vítimas.

Dados compartilhados exclusivamente com a BBC mostram que 1.539 ocorrências relacionadas ao cuckooing foram registradas em Londres entre maio de 2025 e abril de 2026. Destas, 1.275 vítimas eram homens.

Segundo o Conselho Nacional de Chefes de Polícia (NPCC), muitas vítimas acabam se tornando reféns dentro da própria casa.

“Vimos casos em que as vítimas foram forçadas a comer fezes de cachorro ou a realizar atos sexuais que eram gravados e usados posteriormente como forma de chantagem”, afirmou Kirsten Dent, representante do NPCC.

Ela destacou que esse tipo de crime é particularmente difícil de detectar porque acontece dentro das residências e, muitas vezes, longe dos olhos da comunidade.

Como funciona o cuckooing?

O termo faz referência ao pássaro cuco, conhecido por ocupar os ninhos de outras aves para colocar seus próprios ovos.

Da mesma forma, criminosos assumem o controle da residência de uma pessoa vulnerável e passam a utilizá-la como base para suas atividades ilícitas.

A prática está frequentemente ligada ao chamado County Lines, modelo de tráfico em que drogas são transportadas das grandes cidades para regiões menores e áreas rurais.

“Eles tomaram tudo o que eu tinha”

Jamie, de 34 anos, foi uma das vítimas.

Após sofrer uma lesão cerebral causada por uma agressão, ele passou a ter dificuldades de locomoção e comunicação. Segundo seu relato, criminosos se aproximaram fingindo amizade antes de ocupar seu apartamento e transformá-lo em um ponto de venda de drogas.

“As pessoas passaram de amigáveis para simplesmente tirar tudo o que podiam de mim”, contou.

Ele relata que roupas, objetos pessoais e pertences de valor foram levados pelos invasores.

“Eu não conseguia reagir. Com a minha condição, qualquer agressão poderia causar danos graves”, disse.

Após meses vivendo sob intimidação, Jamie conseguiu deixar o imóvel e se mudar para outra região do país.

“Eu era uma prisioneira dentro da minha própria casa”

Outra vítima, identificada como Jackie, relatou que sua situação começou quando acumulou uma dívida relacionada ao uso de drogas.

Como forma de cobrança, um traficante passou a morar em sua residência contra sua vontade.

“Eu implorava para que ele fosse embora, mas ele dizia que precisava continuar lá”, contou.

Jackie afirma que ficou confinada ao próprio quarto durante meses.

“Eu era uma prisioneira dentro da minha própria casa”, disse.

Após deixar a dependência química e concluir um processo de reabilitação, ela hoje trabalha ajudando outras vítimas e conscientizando a população sobre os riscos desse tipo de exploração.

Cenário preocupante

Durante operações realizadas pela Polícia Metropolitana de Londres, agentes encontraram imóveis em condições extremamente precárias.

Segundo os policiais, é comum encontrar casas com lixo espalhado, móveis destruídos, alimentos deteriorados, sinais de violência e condições sanitárias degradantes.

As autoridades afirmam que os principais alvos costumam ser homens entre 40 e 49 anos, frequentemente com histórico de dependência química ou vulnerabilidade social.

Outro fator preocupante é a reincidência.

“Muitas pessoas que já foram vítimas acabam sendo exploradas novamente, mesmo após mudarem de endereço”, explicou o inspetor Andrew Cameron.

Nova lei pretende endurecer punições

O governo britânico pretende transformar o cuckooing em uma infração criminal específica ainda este ano.

A medida faz parte da Lei de Crime e Policiamento de 2026 e prevê penas de até cinco anos de prisão para os responsáveis.

Enquanto a nova legislação não entra em vigor, a polícia continua utilizando outras acusações, como tráfico de drogas, associação criminosa e exploração de pessoas vulneráveis para processar os envolvidos.

Especialistas afirmam que o reconhecimento legal do cuckooing representa um passo importante para aumentar a proteção das vítimas e ampliar a conscientização sobre um crime que, apesar de pouco conhecido, cresce silenciosamente em diversas comunidades do Reino Unido.


FONTE: BBC News
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