Economia do Reino Unido vê crescimento surpresa em março, apesar da guerra do Irã

Por Emer Moreau
2 4 Min

Economia do Reino Unido vê crescimento surpresa em março, apesar da guerra do Irã
Ugur Karakoc/Getty Imagens

A economia do Reino Unido apresentou um crescimento acima do esperado em março, mesmo diante dos primeiros impactos provocados pela guerra no Irã.

Segundo dados divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas (ONS), o Produto Interno Bruto (PIB) britânico cresceu 0,3% no mês, contrariando previsões de analistas que apontavam para uma leve contração. Ainda assim, economistas alertam que os efeitos do conflito devem pesar sobre a economia ao longo dos próximos meses.

No acumulado do primeiro trimestre de 2026, a economia cresceu 0,6%, impulsionada principalmente pela recuperação dos setores de varejo e construção civil. O desempenho representa o crescimento trimestral mais forte do Reino Unido em um ano e, até agora, o maior entre os países do G7 com dados já divulgados.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) havia alertado recentemente que o Reino Unido seria uma das economias avançadas mais afetadas pelos desdobramentos da guerra no Irã.

Empresas e consumidores anteciparam compras

O ONS afirmou que houve sinais de “carregamento antecipado” em março, com consumidores e empresas acelerando compras diante do receio de aumentos de preços causados pelo conflito.

Entre os setores impactados estão vendas e leasing de automóveis. Segundo o órgão, varejistas relataram aumento na procura por combustível, à medida que os preços começaram a subir rapidamente.

Yael Selfin, economista-chefe da KPMG, afirmou que os efeitos econômicos da guerra devem ser ainda mais perceptíveis no segundo trimestre do ano.

“As famílias estão sob pressão renovada à medida que os preços da energia e dos combustíveis aumentam. Os custos dos alimentos também devem subir devido às interrupções no fornecimento de fertilizantes e outros insumos essenciais”, explicou.

Segundo ela, o aumento dos custos deve reduzir a renda disponível das famílias e enfraquecer a demanda nos próximos meses.

Famílias e pequenos negócios sentem pressão

Os irmãos Kennady e Boston Mace, proprietários de um centro recreativo em Chelmsford, no condado de Essex, afirmam que já percebem a redução dos gastos das famílias.

“Tudo está ficando mais caro. Temos um limite do quanto podemos cobrar, então nossa margem de lucro está diminuindo cada vez mais”, disse Boston.

Kennady acrescentou que muitos clientes continuam frequentando o espaço, mas evitam gastar com alimentação.

“O dinheiro está muito mais apertado”, afirmou.

Boston destacou que, apesar de o negócio já ter enfrentado pandemia, incêndio, enchente e roubo, este tem sido “o período mais difícil” em 13 anos de funcionamento.

Governo defende plano econômico

A chanceler Rachel Reeves afirmou à BBC que a economia britânica “está crescendo fortemente” e disse que o governo anunciará novas medidas de apoio para famílias e empresas afetadas pela guerra na próxima semana.

Ela também alertou que disputas internas na liderança trabalhista podem gerar instabilidade econômica.

“Não devemos colocar isso em risco, mergulhando o país no caos em um momento de conflito global, especialmente quando nosso plano econômico começa a dar resultados”, declarou.

Já o chanceler-sombra Mel Stride criticou o cenário político atual, afirmando que a disputa pela liderança trabalhista está “desestabilizando a economia britânica”.

A porta-voz do Tesouro pelos Liberal Democratas, Daisy Cooper, afirmou que os números positivos do crescimento “já ficaram para trás” devido aos efeitos da guerra.

Perspectiva é de desaceleração

Economistas acreditam que o crescimento deve perder força nos próximos meses.

Ruth Gregory, vice-economista-chefe da Capital Economics, afirmou que os dados atuais provavelmente representam “o ponto mais alto do ano” para a economia britânica.

“Ficaríamos muito surpresos se o crescimento não enfraquecesse nos próximos meses, à medida que os efeitos temporários do estoque desaparecem e o aumento nos preços da energia pressiona ainda mais a renda das famílias”, disse.

Ela ainda alertou que, em um cenário mais negativo, o Reino Unido pode enfrentar uma recessão leve.

Os números do PIB ainda podem ser revisados pelo ONS conforme novos dados econômicos forem coletados.

Na atualização mais recente, o crescimento do último trimestre de 2025 foi revisado de 0,1% para 0,2%. Já os dados mensais de fevereiro foram ajustados de 0,5% para 0,4%, enquanto janeiro caiu de 0,1% para estabilidade.


FONTE: BBC News
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