Quase 3 mil pacientes por dia recebem atendimento em corredores
de hospitais do NHS Subtítulo:
PA Media
Pela primeira vez, dados oficiais revelam a dimensão de uma prática que autoridades classificam como preocupante: quase 3 mil pacientes por dia precisaram receber atendimento em corredores ou áreas improvisadas de hospitais da Inglaterra durante o mês passado.
Segundo os números divulgados pelo NHS, cerca de 2.910 pacientes por dia foram tratados fora das enfermarias convencionais. A situação ocorre quando uma pessoa permanece por mais de 45 minutos recebendo cuidados em locais improvisados, como corredores, salas adaptadas, áreas próximas às enfermarias e, em alguns casos, até estacionamentos.
Os dados mostram que, em maio, uma média de 2.241 pacientes passou por essa situação nos departamentos de emergência (A&E), enquanto outros 669 receberam atendimento em corredores ou espaços improvisados dentro dos hospitais.
Embora represente cerca de 3% a 4% dos pacientes que chegam diariamente às emergências, os números evidenciam a pressão enfrentada pelo sistema de saúde britânico.
Relatos preocupantesSuzanne, que acompanhou a mãe, de mais de 80 anos, em cinco visitas ao pronto-socorro este ano, contou que cada atendimento significou mais de 24 horas de espera em um corredor.
“Minha mãe era apenas mais uma maca em meio a dezenas de outras. Ela estava confusa e angustiada. Sem a nossa presença, temo pelo que poderia ter acontecido”, afirmou.
Já Kathy passou 36 horas sentada em uma cadeira aguardando atendimento após ser encaminhada pelo médico com suspeita de uma infecção ocular. Posteriormente, descobriu que os sintomas eram causados por um tumor cerebral.
“Foi horrível. Cheguei em casa completamente exausta e emocionalmente destruída”, relatou.
Profissionais descrevem cenário críticoEnfermeiros que conversaram com a BBC, sob condição de anonimato, descreveram ambientes extremamente sobrecarregados.
Um deles relatou que pacientes em macas presenciaram manobras de reanimação cardiopulmonar realizadas em um corredor após uma parada cardíaca.
“Não há dignidade nisso. Pessoas frágeis assistindo a cenas traumáticas enquanto aguardam atendimento”, disse.
Outra profissional comparou o ambiente de trabalho a uma “zona de guerra” e afirmou ter testemunhado um paciente falecer sem que ninguém percebesse imediatamente.
Governo promete mudançasO governo britânico classificou o atendimento em corredores como “inaceitável” e estabeleceu como meta eliminar a prática até 2029.
O secretário da Saúde, James Murray, afirmou que a divulgação dos dados é um passo importante para identificar os hospitais mais pressionados e direcionar apoio onde for necessário.
Especialistas alertam, porém, que a publicação dos números por si só não resolverá o problema. Organizações da área da saúde afirmam que a superlotação hospitalar reflete desafios estruturais enfrentados pelo NHS há vários anos.
Para profissionais e pacientes, os novos dados apenas confirmam uma realidade que já vinha sendo vivida diariamente dentro dos hospitais britânicos.