Mais de 300 migrantes a caminho do Reino Unido foram sequestrados na Líbia
e ameaçados com remoção de órgãos
Governo Regional Curdo
Mais de 300 migrantes do Curdistão iraquiano que tentavam chegar ao Reino Unido foram sequestrados na Líbia no ano passado por uma milícia armada que exigia pagamentos de resgate de suas famílias, segundo uma investigação da BBC.
As vítimas relataram ter sido mantidas em condições desumanas, submetidas a torturas e ameaçadas com a remoção forçada de órgãos caso os pagamentos não fossem efetuados.
De acordo com os relatos, cada família recebeu a exigência de pagar cerca de US$ 5 mil para garantir a libertação dos reféns. Em alguns casos, os sequestradores afirmavam que, se o valor não fosse pago rapidamente, o “pagamento seria feito com um rim”.
A BBC entrevistou diversos sobreviventes que conseguiram retornar ao Curdistão iraquiano e teve acesso a fotografias e relatos que sugerem possíveis procedimentos cirúrgicos forçados realizados durante o período de cativeiro.
Tortura e superlotaçãoOs ex-reféns afirmam que foram mantidos em locais superlotados, com até 178 pessoas dividindo uma única cela.
Um dos sobreviventes, de apenas 16 anos, contou que passou seis meses sem ver a luz do sol.
“Dormíamos sentados porque não havia espaço suficiente para deitar”, relatou.
Outro jovem exibiu cicatrizes provocadas por queimaduras que, segundo ele, foram resultado de tortura praticada pelos sequestradores.
As vítimas também relataram que recebiam quantidades mínimas de alimento e que, em muitos casos, era necessário pagar valores adicionais para conseguir comida.
Suspeitas de remoção forçada de órgãosFamiliares dos reféns apresentaram imagens de cicatrizes que levantaram suspeitas sobre a retirada forçada de rins de alguns prisioneiros.
Especialistas consultados pela BBC afirmaram que as marcas observadas são compatíveis com incisões utilizadas em cirurgias renais, embora não tenha sido possível comprovar definitivamente que a remoção de órgãos ocorreu.
Autoridades locais acreditam que parte dos sequestrados pode ter sido obrigada a entregar órgãos como forma de pagamento aos criminosos.
Pelo menos uma morte relacionada ao caso já foi confirmada, mas o número total de vítimas ainda não é conhecido.
Rede de tráfico humanoA investigação aponta que os migrantes estavam sendo transportados por uma rede internacional de tráfico humano que prometia levá-los até o Reino Unido por meio de rotas que atravessam o Norte da África e o Mar Mediterrâneo.
As apurações também mencionam o nome de Noah Aaron, apontado como um dos organizadores das viagens. Atualmente, ele cumpre uma pena de 10 anos de prisão na França por crimes relacionados à lavagem de dinheiro e ao tráfico de migrantes.
Segundo especialistas, a instabilidade política da Líbia e o controle de diferentes regiões por grupos armados favorecem a atuação de redes criminosas que exploram migrantes em situação de vulnerabilidade.
Tragédias que se repetemApesar dos riscos amplamente conhecidos, autoridades do Curdistão iraquiano afirmam que muitas pessoas continuam tentando chegar à Europa por rotas ilegais.
Hemn Merany, alto funcionário do Ministério do Interior do Governo Regional do Curdistão, afirmou que os relatos dos sobreviventes têm sido utilizados em campanhas de conscientização para alertar famílias sobre os perigos da migração irregular.
No entanto, segundo ele, mesmo histórias de mortes, tortura e desaparecimentos nem sempre são suficientes para impedir novas tentativas.
“A parte mais triste de tudo isso é que muitas vezes não aprendemos com essas tragédias”, afirmou.